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Artesanato Indígena e o Cocar (As Representações e Significados)

Artesanato Indígena e o Cocar

O cocar é um símbolo de nobreza para os índios, ultrapassa limites do estético e imprime em suas penas e sementes a ordenação da aldeia, o significado da vida, a importância do ser.

Sua forma em arco gira entre o presente e passado, e se projeta para o futuro. Cada tribo tem o seu significado especial, mas uma regra é geral: os maiores e mais vistosos devem enfeitar as cabeças de curandeiros e caciques.

Na aldeia kayapó, por exemplo, as cores das penas do cocar não são aleatórias:

  • O verde representa as mata e florestas.
  • O vermelho simboliza a casa dos homens.
  • O amarelo representa as casas e as roças, áreas dominadas por mulheres.
Cocares de canudinho feitos pelos Kayapós
Cocares de canudinho feitos pelos Kayapós

Na foto, temos os exemplares feitos em canudinhos pelos Kayapós, uma maneira artística de se manter a tradição com respeito à natureza.

O que é o Cocar Indígena?

Um cocar é o adorno usado por muitas tribos indígenas americanas na região da cabeça. Sua função variava de tribo para tribo, podendo servir de adorno a símbolo de status ou classe na tribo.

Geralmente, é confeccionado de penas presas a uma tira de couro ou de outro material.

O Significado do Cocar Indígena

Um cocar de guerra das tribos Creek norte-americanas.
Um cocar de guerra das tribos Creek norte-americanas.

Sua beleza era considerada de importância secundária: o valor real do cocar estava em seu suposto poder para proteger o usuário.

O cocar é de uso apenas para ocasiões especiais e é altamente simbólico. É conquistado por meio de atos de coragem na batalha: as penas significavam os próprios atos.

Alguns guerreiros poderiam ter obtido apenas duas ou três penas de honra em toda a sua vida, pelo fato da alta dificuldade para conquistá-los.

O cocar também foi uma marca maior de respeito, porque nunca poderia ser usado sem o consentimento dos líderes da tribo.

Uma grande honra, por exemplo, era conferida ao guerreiro que houvesse sido o primeiro a abater um inimigo no campo de batalha, pois isso significava que o guerreiro estava na dianteira da frente de combate.

Penas foram entalhadas e decoradas para designar um evento e contar histórias individuais, como matar, capturar arma e escudo de um inimigo, e se o ato tivesse sido feito a cavalo ou a pé.

Em algumas tribos, cocares foram desenvolvidos para determinados indivíduos com permissão especial para caçar aves de rapina, como a águia.

Algumas tribos permitiam que somente o guerreiro caçasse suas próprias águias. Esta era uma missão perigosa e demorada e significava que ele deveria deixar a tribo e viajar para o local onde o pássaro poderia ser encontrado, podendo ser em outro país.

Quando o objetivo era alcançado, cerimônias eram realizadas para atrair os espíritos dos pássaros que seriam mortos.

O cocar do chefe é feito de penas recebidas por boas ações para a sua comunidade e é usado em grande honra. Cada pena representaria uma boa ação.

O cocar de guerra do guerreiro, assim como o capacete romano, era usado pelos guerreiros para proteção durante a batalha.

Etimologia: “Cocar” origina-se do francês cocarde, “distintivo que se usa na cabeça”.

Cocares de Canudos: A Arte Feita á Mão Pelos Guerreiros Kayapós

Cocar de canudo sendo usado por guerreiro Kayapó
Cocar de canudo sendo usado por guerreiro Kayapó

O cocar é um artefato ritual, confeccionado artesanalmente pelos homens da aldeia e usado em cerimônias de diversas etnias.

Se até pouco tempo seu uso era restrito a ritos, exposições e pesquisas de arte indígena, hoje o cocar toma as ruas da cidade, despertando interesse sobre suas origens e os costumes relacionados a este adorno.

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Grande parte dessa nova “moda” se deve à invenção dos índios Kayapó, habitantes das margens do Rio Xingu: o cocar de canudos ou pidjôkango oicõ djã nho meàkà, na língua indígena.

O protótipo original do cocar chama-se meakà. É um arco feito com penas de diferentes pássaros, como araras, papagaios, mutuns e rei-congos, conforme as cores escolhidas por quem o confecciona.

São os homens que caçam os pássaros na floresta, arrancam-lhes as penas e preparam-nas para serem afixadas lado a lado com linhas de algodão cru, dando forma, simetria e beleza ao meakà.

“Estes cocares de canudinhos de plástico são perfeitos exemplares da criatividade Kayapó em absorver novas matérias-primas e moldá-las segundo sua tradição estética em formas antes moldadas com materiais considerados tradicionais (por nós e não por eles), tais como as penas, as sementes, os cipós e embiras.“

A fala é do antropólogo André Demarchi, que tem os Kayapó como objeto de pesquisa desde 2009. André integra a Rede Tucum e é de autoria dele o material que usamos como referência para este texto.

UMA BREVE HISTÓRIA SOBRE O COCAR

Índio Kayapó confeccionando um cocar de canudos
Índio Kayapó confeccionando um cocar de canudos

De acordo com a mitologia Kayapó, o cocar de penas é um troféu de guerra conquistado depois que dois guerreiros mataram Àkti, o grande gavião que gostava de se alimentar de crianças e velhos indefesos.

Assim, não é qualquer um que pode portar na cabeça um cocar; é preciso que seja transmitida pelos mais velhos uma espécie de permissão, que acontece durante as cerimônias de nominação.

É a partir deste ritual que a criança é apresentada como especialmente bela (mereremejx) para aquela comunidade e torna-se apta, entre outras coisas, a usar sob a cabeça um cocar.

O uso ritual do cocar é restrito a apenas uma pessoa, considerada como o dono ou aquele que pode utilizá-lo. Enquanto algumas pessoas têm a prerrogativa de utilizar o verde, feito de penas de papagaio; outra pode usar o vermelho, de penas de arara e uma outra, o amarelo, de penas de japu.

Para pegar emprestado um cocar, é necessário que haja autorização do dono e que depois da festa, seja prontamente devolvido a ele ou à sua família.

Ter um cocar sob a cabeça é algo muito significativos entre os Kayapó. Com o cocar de canudos ocorre algo similar, já que ele também se transformou em um bem simbólico com circulação restrita apenas a seus donos, que continuam sendo proprietários deste objeto ritual de cores distintas.

Somente o dono do cocar de penas de japu (amarelas) pode usar e mesmo confeccionar o cocar com canudinhos amarelos, por exemplo.

POR QUÊ CANUDOS?

Exemplo de cocar Kayapó vendido na TUCUM.
Exemplo de cocar Kayapó vendido na TUCUM.

Os canudos viraram matéria-prima devido a um grande incêndio que devastou a aldeia Môikarakô, Terra Indígena Kayapó, PA, nos anos 90.

Embora não tenha deixado vítimas, o fogo queimou praticamente todas as casas da aldeia e boa parte dos pertences de seus habitantes, incluindo seus valiosos bens cerimoniais, dentre eles os cocares de penas que estavam sendo produzidos para um ritual dali a alguns dias.

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Mesmo com suas casas e enfeites queimados, os moradores da aldeia decidiram fazer a festa. Foi nesse contexto de resistência e superação que um velho indígena teve a ideia de produzir os arcos com os canudinhos de plástico para adornar as cabeças de seus companheiros de aldeia de forma que eles pudessem dançar e festejar superando o ocorrido.

Mal sabia ele do sucesso que este artefato faria entre os próprios Kayapó e décadas mais tarde, entre admiradores da cultura indígena e foliões querendo deixar a “fantasia de índio” ainda mais significativa.

Nesta transição entre a confecção do cocar para uso interno e ritual para o uso lúdico, festivo e comercial por não-indígenas, a produção ganha muito em liberdade criativa, em especial quanto à combinação de cores.

Ver os cocares de canudo, feitos sob a mesma tradição dos cocares de pena, vale lembrar, virando item de desejo entre os que curtem o Carnaval, é motivo de orgulho para os Kayapó que, com sua cultura, ajudam a enfeitar esta grande festa dos brancos – ou kuben, na língua Kayapó.

Kit Carnaval da Tucum
Kit Carnaval da Tucum

Com a proibição da comercialização de artesanato feito com penas e outras partes animais silvestres por meio de uma portaria do Ibama, referente ao artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605/1998), incentivar a produção do cocar de canudos é também uma forma de saudar o artesanato indígena de forma responsável.

A Associação Floresta Protegida (AFP) é uma ONG que representa os Kayapó, parceira da Rede Tucum e pioneira no fomento e divulgação dos cocares de canudo.

Todo fim de ano, a Tucum encomenda à AFP uma grande quantidade destes cocares, o que se torna uma fonte de renda para os guerreiros Kayapó que dominam com maestria seus saberes tradicionais para a confecção deste objeto.

É impressionante ver a qualidade e beleza dos cocares à medida em que vão chegando na Tucum! Novas técnicas os tornaram mais firmes e as combinações de cores extremamente criativas.

Com a ideia de difundir a cultura Kayapó, a AFP produziu uma série documental super bacana sobre o artesanato desta etnia que adora festa.

Confira o episódio “Cocar de Canudo” e saiba mais sobre a técnica ancestral deste povo ao confeccionar seus cocares.

Os Cocares do MAI – Museu de Arte Indígena

Cocar etnia Kayapó-Gorotire (MT)

Cocar etnia Kayapó-Gorotire (MT)
Cocar etnia Kayapó-Gorotire (MT)

O equilíbrio está sempre presente nas peças Kayapó. Além de ser o adorno mais importante para a maioria das etnias, o cocar, circular solar, também sinaliza a disposição das casas na aldeia.

Este, com amarração básica, mostra grande harmonia no uso das cores. Somente os homens têm o direito de usá-lo.

Ostentam este diadema em cerimônias, em especial, no ritual de imposição de nomes “kwyr-kangô”.

Cocar etnia Dessana (AM)

Cocar etnia Dessana (AM)
Cocar etnia Dessana (AM)

Os Dessana estão localizados às margens do Rio Negro, numa região em que há uma imensa riqueza de idiomas. Este cocar traz uma mistura interessante de plumas em sua base e penas coloridas harmonicamente dispostas.

O ciclo anual dos Dessana é pontuado por uma série de festas coletivas, cada uma com cantos, danças e instrumentos musicais apropriados, marcam eventos importantes do mundo humano e natural – nascimentos, iniciações, casamentos e mortes, a derrubada e construção de casas, migração dos peixes e pássaros, a disponibilidade de frutas e alimentos.

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Cocar etnia Karajá Javaé (TO)

Cocar etnia Karajá Javaé (TO)
Cocar etnia Karajá Javaé (TO)

O detalhe deste cocar é o fato de utilizar as penas cor-de-rosa do colhereiro, ave considerada o flamingo brasileiro, que só existe na Ilha do Bananal.

Cocar etnia Karajá (MT)

Cocar etnia Karajá (MT)
Cocar etnia Karajá (MT)

Este imponente cocar azul e branco é emplumado em lascas de bananeira e utiliza as penas do peito do gavião real retiradas de aves ainda jovens e coladas com clara de ovo.

Cocar Pétalas etnia Karajá (MT e TO)

Cocar Pétalas etnia Karajá (MT e TO)
Cocar Pétalas etnia Karajá (MT e TO)

Em formato chamado de coifa ou coroa, este cocar traz uma emplumação exclusiva dos índios Karajá, única etnia que utiliza a técnica que remete a pétalas de flores.

Cocar Tapiragem etnia Enawenê Nawê (MT)

Cocar Tapiragem etnia Enawenê Nawê - MT
Cocar Tapiragem etnia Enawenê Nawê – MT

Cocar usado na festa do Yãkwa, ritual mais longo e importante realizado pela etnia. São os únicos no Brasil e, possivelmente no mundo, a utilizar a técnica da Tapiragem, que consiste na extração de uma substância da pele das costas das rãs, macerada com ervas e passada como um unguento no papagaio vivo, que imediatamente transforma as penas verdes em amarelas.

Cocar Tucanape – Todas as etnias do Xingú (MT)

Cocar Tucanape - Todas as etnias do Xingú - MT
Cocar Tucanape – Todas as etnias do Xingú – MT

O Tucanape é um cocar usado pelas principais lideranças do Parque Indígena do Xingu em grandes celebrações, especialmente, o Kuarup, uma das mais importantes.

Cocar etnia Irantxe – MT

Cocar etnia Irantxe - MT
Cocar etnia Irantxe – MT

Estão localizados no Mato Grosso, nas aldeias Paredão, Recanto Alípio, Perdiz, Asa Branca, Treze de Maio e Maurício.

Junto com a Terra Indígena dos Miky, vivem às margens do rio Papagaio.

Quanto Custa um Cocar Indígena e Onde Comprar?

Um cocar indígena custa, em média, de R$ 298 a R$ 1.690 e pode ser comprado na internet, em sites de compra e venda, e, talvez, em exposições e aldeias.

O preço do cocar indígena pode ser influenciado por muitos fatores. Acredito que, quanto mais valiosa a matéria-prima, mais caro fica.

Além, é claro, da etnia que vem o cocar e sua simbologia.

A Aldeia Cabe no Cocar

A disposição e as cores das penas do cocar não são aleatórias. Além de bonito, ele indica a posição de chefe dentro do grupo e simboliza a própria ordenação da vida em uma aldeia Kayapó.

Em forma de arco, uma grande roda a girar entre o presente e o passado.

As cores do cocar:

O verde representa as matas, que protegem as aldeias e, ao mesmo tempo, são a morada dos mortos e dos seres sobrenaturais.

São consideradas um lugar perigoso, já que fogem ao controle dos Kayapó. A cor mais forte (vermelho) representa a casa dos homens, que fica bem no coração da aldeia.

É a “prefeitura” Kayapó, presidida apenas por homens. Aí eles se reúnem diariamente para discutir caçadas, guerras, rituais e confeccionar adornos, como colares e pulseiras.

O amarelo refere-se às casas e às roças, áreas dominadas pelas mulheres. Nesses espaços, elas pintam os corpos dos maridos e dos filhos, plantam, colhem e preparam os alimentos.

Todas as choças têm a mesma distância em relação à casa dos homens.

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