Artesanato Indígena Xerente – O Artesanato Dourado

Nos últimos anos, os Xerente têm buscado outras fontes de renda. A confecção e a venda de artesanato – cestaria, bordunas, arcos e flechas, colares, etc – apesar de muito desvalorizada pelos regionais, é uma das principais atividades desenvolvidas pelo grupo, já que a matéria-prima utilizada (fibras de buriti, sementes de capim-navalha, palhas de coco, etc) é acessível a toda população.

A Cultura Xerente e seu Artesanato Dourado

Artesanato Dourado Xerente

Entre os Xerentes Isake (sdakrã ou wairi) e os Dohi (siptato ou doi), em suas distinções culturais, como o uso das pinturas corporais com motivo de traço pelos primeiros e de círculo pelos últimos, há nos clãs confrontantes – que se autodenominam daziwasé – a compreensão de que devem trabalhar juntos ou ainda realizar o enterro e o ritual do kupre de modo recíproco e intercambiado.

Esse princípio de solidariedade os une em redes simbólicas e subjetivas presentes em suas experiências cotidianas e nas práticas artesanais configuradas em cestarias, bordunas, colares, arcos e flechas cuja matéria-prima utilizada (fibras de buriti, sementes de capim-navalha e palhas de coco) está disponível a toda população e define muitos sentidos da vida social.

Apesar de existir uma disputa de origem, com distintas versões, sobre a presença indígena xerente no artesanato em capim dourado, a produção artesanal com capim dourado sempre pertenceu ao povo Xerente.

A técnica de costurar pequenos molhos de hastes (escapos) de capim
dourado com “seda” de buriti (Mauritia flexuosa Mart., Arecaceae) em feixes concêntricos, que caracteriza o artesanato de capim dourado do Jalapão, tem origem indígena.

A confecção artesanal iniciou-se na região há cerca de 80 anos, quando “índios que vinham do lado do Araguaia” passaram pelo Povoado da Mumbuca e ensinaram os moradores do Povoado a “costurar capim” com seda de buriti.

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Querelas à parte, o artesanato das comunidades xerente, em sua maioria, é elaborado por mulheres índias que adentram ao mercado de trabalho, atuando na comercialização de suas peças e contribuindo para o fortalecimento de sua autonomia.

No trajeto entre o savoir faire e a comercialização de um produto de raízes
identitárias e heranças culturais, o registro das peças produzidas, quer no Livro de Registro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), quer no Selo de Indicação Geográfica (IG) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), revela sua importância na medida em que o primeiro amplia a divulgação do artesanato local,
incentivando políticas públicas para seu incremento e preservação, enquanto o segundo registro valoriza a qualidade do produto, delimitando a singularidade de sua área geográfica, além de garantir sua titularidade/propriedade de autoria.

O Artesanato em Capim Dourado em sua Patrimonialização

Artesanato em Capim Dourado

O tempo e a paciência gastos na confecção de um produto manual configuram a estética do artesanato e agregam a este uma teia de valores simbólicos e identitários resultantes de um fazer individual, que exige destreza e habilidade, relacionando uma cadeia social de compreensão do entorno.

Os artigos tradicionais de cultura material, na medida que continuam a ser
produzidos, são reconceitualizados por ambas as perspectivas, a nativa e a
ocidental, em termos estéticos – tanto aqueles de curiosidade kitsch quanto
o de belas artes. Assim, objetos de “cultura material” – que no contexto tradicional tinham, frequentemente, valor espiritual – são reespiritualizados (em termos ocidentais) como objetos estéticos, ao mesmo tempo em que são submetidos às leis do mercado do mundo da arte.

A própria ligação da comunidade artesã com a natureza, o trabalho com o capim dourado requer um profundo conhecimento da matéria-prima que dá cor e forma às peças produzidas por mãos calejadas a serviço de uma estética de transformação de um recurso natural.

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Desse modo, cabe entender a planta em seu sentido completo, como […] uma sapata (ou roseta […]), que cresce perto do solo e tem 3 ou 4 centímetros de largura. Geralmente essa sapata fica escondida debaixo de
todos os outros capins, e é ela que produz as hastes douradas que vemos no artesanato.

A princípio, os artesãos do capim dourado dedicavam-se à produção de utensílios domésticos, pois ainda não havia um núcleo produtor destinado à comercialização das peças. Assim, o artesanato não era reconhecido ou valorizado, não gerando impacto econômico na comunidade que o produzia.

O artesanato em capim dourado foi mostrado pela primeira vez ao grande público em 1993, na I Feira de Folclore, Comidas Típicas e Artesanato do Estado do Tocantins (FECOARTE), na capital Palmas. Na atualidade, quatro associações da região do Jalapão, compostas por mulheres e homens, produzem as peças artesanais em capim dourado nos municípios de Ponte Alta do Tocantins, Mateiros e São Félix do Tocantins, sendo elas:

  • a Associação Capim Dourado do Povoado da Mumbuca;
  • a Associação Comunitária dos Artesãos e Pequenos Produtores de Mateiros;
  • a Associação dos Artesãos do Capim Dourado Pontealtense e a
  • Associação Comunitária dos Extrativistas, Artesãos e Pequenos Produtores do Povoado do Prata de São Félix do Tocantins.

O artesanato de capim dourado chegou ao Jalapão em meados de 1920
pelas mãos de índios Xerente.

A arte foi aprendida por moradores da comunidade quilombola da Mumbuca e, desde então, é passada de geração em geração nas comunidades jalapoeiras.

Artesã trançando o capim dourado

Entre 1999 e 2002, foram realizadas oficinas com a comunidade para aprimorar o artesanato em sua funcionalidade, o acabamento das peças e incentivar a criatividade de novos designs para a comercialização, sendo patrocinadas pelo Sebrae e pela Secretaria de Cultura do Estado do Tocantins.

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